
Final Libertadores 2005
-Voce pode morrer amanhã ou em 50 anos. O grande segredo é tomar as decisões HOJE, considerando estas duas perspectivas. E aí?
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Alternativo ou mainstream?
Com o pedido de concordata da Tower Records, uma das maiores cadeias de
lojas de musica do mundo, sobraram, basicamente, HMV e Virgin como grandes
nomes do varejo de CDs, presentes em varios paises, com lojas imensas e
estoques completos.
So que, para os radicais da musica independente, essas cadeias sao sinonimo
de desprezo pelas pequenas gravadoras, de homogeneizacao do gosto
planetario. De falta de personalidade e de escrupulos, tambem. Mas sera
que, de um ponto de vista estritamente musical, as coisas sao tao simples
assim?
Na entrada de uma imensa filial da Virgin em Chicago (EUA), fica a
prateleira dos recomendados pela loja. Virgin, cadeia careta, e voce logo
imagina que os recomendados serao coisas do naipe de Sting, Phil Collins e
outras aberracoes.
Mas nao. Olha so alguns indicados pela Virgin: Kaiser Chiefs, Bloc Party,
LCD Soundsystem, Bravery, Kills, Kasabian... Ou seja, nada muito diferente
do que, provavelmente, sao os recomendados das descoladas Amoeba, da
California, ou das da Galeria do Rock, em SP.
Se voce quer continuar odiando o megacapitalista Richard Branson, dono do
imperio Virgin, e bom encontrar razoes extra-musicais. O cara pode ser um
oportunista, mas, musicalmente falando, esta mandando bem.
*
Para complicar mais, o critico Andy Langer, da "Esquire", se diz cansado de
bandas novas baseadas no The Cure (Bloc Party, alguem?) e resolveu
recomendar artistas fora do radar. Um deles e a cantora colombiana Andrea
Echeverri (do grupo Aterciopelados), que esta em um CD de divulgacao da
Virgin, junto com Kaiser Chiefs, Bloc Party, Bravery e varias outras bandas
do tipo que o Andy Langer diz que nao aguenta mais...
*
Mais uma paulada nas divisoes entre alternativo e mainstream. A cantora
norueguesa Annie e, no pais dela, um misto de Madonna com Britney Spears.
Pop, pop, pop, pop. So que, entre a galera indie de lingua inglesa, Annie e
figura cult. Ate ha pouco sem lancamento oficial nos EUA, suas cancoes eram
baixadas na internet.
Neste mes, Annie foi oficialmente lancada nos EUA. Para qual publico, indie
ou mainstream, nao se sabe. O album se chama "Anniemal".
*
Ainda Bloc Party, se alguem ouvir uma musica ruim desses caras, me avise,
por favor.
*
PLAY - "Everyday I Love You Less and Less", Kaiser Chiefs
Para "Escuta Aqui", a melhor cancao dessa novissima banda londrina. Como se
fosse The Clash, Devo e Dead Kennedys redivivos, em um so pacote.
PAUSE - "With Teeth", Nine Inch Nails
Parece que Trent Reznor, do NIN, passou os ultimos seis anos em estado de
animacao suspensa. Em "With Teeth", os abrasivos anos 90 ainda nao
acabaram.
EJECT - "Leoni ao Vivo", DVD
Ninguem merece.
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William Faulkner e pauleira
ALVARO PEREIRA JUNIOR
Voce veria futuro para alguem com as seguintes caracteristicas: na familia,
ninguem o via como especialmente inteligente; na escola, fez so ate o
segundo ano do ensino medio; gracas a um programa especial para
ex-militares, cursou alguns meses de faculdade, mas tirou notas mediocres;
nao tinha nenhum amigo intelectual -na verdade, tinha poucos amigos
plenamente alfabetizados.
Sabe quem e o dono do curriculo? Ninguem menos que o americano William
Faulkner, Nobel em 1949, o inovador mais radical da literatura dos EUA no
seculo 20.
Esses detalhes da vida de Faulkner estao em um lindo artigo do escritor
sul-africano J. M. Coetzee (Nobel em 2003) no semanario "The New York
Review of Books". Quem me indicou o texto foi o chapa Cassiano Elek
Machado, da Ilustrada (ao contrario do Faulkner, eu tenho amigos
intelectuais!).
Para Coetzee, Faulkner nao precisava de educacao formal, porque era um
leitor obstinado, conhecedor de poesia inglesa, de Shakespeare e tambem da
ficcao de Balzac, Dickens e Conrad, do Velho Testamento e de seus
contemporaneos T.S. Eliot e James Joyce. Para o tipo de escritor que
Faulkner pretendia ser, aponta Coetzee, isso era o bastante.
Enquanto lia o artigo, me lembrei de uma "Escuta Aqui" de semanas atras,
sobre imitadores brasileiros de outro escritor americano, Hunter S.
Thompson, que se suicidou ha algumas semanas. A coluna era sobre a baixa
qualidade literaria dos clones brazucas, cujo trabalho da a mais nitida
impressao de que nunca leram nada, nem do proprio Hunter, justamente o cara
que pretendem copiar.
A biografia de Faulkner tem muito a ver, tambem, com a de Albert Einstein,
uma mente poderosa que nunca brilhou no universo escolar (era um aluno mais
ou menos, pessimo em humanas, de familia sem tradicao intelectual etc.).
Ninguem diria que o menino de inteligencia aparentemente mediana se
tornaria o nome mais importante da ciencia no seculo 20.
Nao tenha pressa para conhecer a obra de William Faulkner. Va amadurecendo
seu gosto aos poucos, porque Faulkner e pauleira.
Da saltos de tempo, troca de narrador sem avisar, da o mesmo nome a
personagens diferentes, reproduz a linguagem falada de brancos e negros do
Sul racista dos EUA sem a menor consideracao pelo leitor.
Meu livro preferido dele e "The Sound and the Fury" ("O Som e a Furia"). Um
dia, tambem sera o seu.
CD PLAYER
PLAY - "Lullabies to Paralize", Queens of the Stone Age
Sobrou so o Josh Homme, e basta. Ele domina um heavy metal nervoso, aflito,
cantando quase sempre em falsete.
PLAY - "Employment", Kaiser Chiefs
Essa novissima inglesa conseguiu o que os Libertines so tentaram: imitar o
Clash direitinho.
EJECT - Bandas gauchas reunidas em show acustico
Nem o diretor Wes Craven e o escritor Stephen King juntos atingiriam esse
nivel de horror.
@- cby2k@uol.com.br
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Alvaro Pereira Junior
Revolucao no ar
O radio esta ficando mais inteligente nos EUA. Tomara que a onda chegue
logo ao Brasil.
A ressurreicao do radio independente foi saudada pela sempre atenta revista
americana "Wired", em sua edicao de marco.
O simbolo disso tudo? O tiozinho Steve Jones, ex-guitarrista dos Sex
Pistols, hoje DJ nas tardes da Indie 103.1 (www.indie1031.fm
"Escuta Aqui".
Voce sabe do Steve Jones e da Indie 103 ha muito tempo, porque ouvi a radio
logo que comecou a funcionar. Mas o grande publico americano so agora toma
conhecimento do fenomeno que a Indie 103 virou. E uma uma radio comercial,
mas de olhos abertos para novidades inteligentes e musica antiga boa.
Comecam a surgir clones da Indie 103 por todos os Estados Unidos. Anote
outros nomes de radios que vao na mesma linha, e faca a festa na internet:
www.1077theend.com
ego.com
So as duas primeiras transmitem ao vivo na internet, mas vale ver os sites
das outras tambem, porque sao bastante informativos, trazem playlists e, no
caso da radio de Denver, ate uma declaracao de principios para libertar o
radio das amarras das grandes redes!
Alem dessa revolucao de conteudo, o radio dos gringos passa por outra
reviravolta, a da tecnologia. Primeiro, por causa do radio por satelite,
que em janeiro ja tinha mais de 4 milhoes de assinantes. Segundo, por causa
do radio digital, que vai ter para o radio o mesmo impacto que a TV de alta
definicao esta tem na TV.
Para mais detalhes: www.wired.com/wired/archive/13.03/radio
Ando intrigado com o som da dupla francesa M83 (www.ilovem83.com). O som
nao e de dupla -e de banda, e como se tivesse duas guitarras!
Para complicar, a musica e fora de moda. Parece aquelas bandas de guitarras
do comeco dos anos 90 (Lush, Ride), acompanhadas de uma orquestra furiosa.
Li uma critica do ultimo disco deles que traz uma definicao inteligente, no
som do M83, as guitarras sao processadas para parecer sintetizadores. E os
sintetizadores sao usados como guitarras.
CD player
PLAY - Bloc Party ao vivo
Nao, a sensacao do rock ingles nunca tocou no Brasil. E eu nao vi os caras
em um show gringo. Bloc Party ao vivo, em audio e video, esta aqui:
www.kcrw.org/show/mb
PAUSE - "Before the Dawn Heals Us", M83
Intrigante, porem irregular, o album do M83 traz duas faixas muito boas:
"Teenage Angst" e "Don't Save Us from the Flames".
EJECT - A volta do Cream
Tres musicos sensacionais -Ginger Baker, Jack Bruce e Eric Clapton-
formaram o Cream nos anos 60 e inventaram o jazz rock. E pecado para o
resto da vida, nao deveriam voltar.
ESCUTA AQUI
So os Smiths salvam o mundo
ALVARO PEREIRA JUNIOR
Quase 30 anos, emprego tranquilo, apartamento OK em Nova York, muitas
drogas, algumas mulheres... e ne-?0 nhum objetivo na vida. O que fazer
diante desse quadro inerte? Tentar reunir os Smiths, e claro! Se nao
estiver claro para voce, leia ate o final.
O paragrafo acima resume o romance "How Soon is Never", do americano Marc
Spitz, reporter da revista "Spin". Joe Green, o protagonista dessa historia
fortemente autobiografica, trabalha como reporter de uma revista de musica
em Nova York (o que me faz lembrar o comentario de um amigo: "Quando um
escritor nao tem imaginacao, escreve sobre a propria vida").
Green se sente culpado por ter um emprego facil, por beber e tomar drogas
como alguem dez anos mais novo, por ser um classe media sem graca dos
suburbios de Manhattan, por pegar meninas mal saidas da adolescencia, por
nunca ligar para a mae, por trabalhar numa revista feita por tiozinhos que
botam na capa bandas que eles odeiam, mas que "dao certo com a molecada".
Cansado de vagar pela vida, Joe se associa a secretaria do editor da
revista para uma reportagem dos sonhos, perseguir cada um dos quatro
componentes dos Smiths, sondando-os para uma reuniao da banda.
"How Soon is Never" (se voce entendeu o titulo, ja e um otimo sinal) surge
no vacuo, e obvio, da literatura pop representada por Nick Hornby ("Alta
Fidelidade") e seus 500 mil clones. Assim como no livro de Hornby, as
citacoes pop de "How Soon is Never" sao tantas que parecem transbordar da
pagina.
Marc Spitz, no entanto, e um escritor menor que Hornby, e seu romance tem
"vibe" muito mais de grande reportagem do que de uma obra literaria.
Ainda assim, recomendo vivamente "How Soon is Never". A trajetoria da
musica jovem, do punk ate os dias atuais, esta muito bem descrita. E alguns
trechos (quase escrevi "cenas") sao de morrer de rir, como aquele em que
Joe encontra uma mocinha maravilhosa em um hotel de luxo, diz que se chama
Ian Curtis, lider de uma "nova" banda, Joy Divison, e com esse cao consegue
levar a princesa para o quarto.
De uma olhada em www.marcspitz.com
"vibe" e encomende "How Soon is Never" na sua importadora preferida. Nao e
Nick Hornby, mas e legal assim mesmo.
CD PLAYER
PLAY - "It's Gonna Be a Long Night", Ween
Sempre detestei a dupla engracadinha Ween, mas essa musica, tirando onda
com o Motorhead, e demais (sim, e de 2003, mas eu nao conhecia).
PAUSE - "Dangerous Dreams", Moving Units
Album de punk funk desse grupo de Los Angeles. Em Nova York, 500 outras
bandas fazem igual. Em 2084, essa moda chegara ao Brasil.
EJECT - "Strangers", Ed Harcourt
Mais um songwriter sensivel. O album e um pesadelo que mistura Coldplay com
Burt Bacharach (pobre Burt).
@ - cby2k@uol.com.br
ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR
Se você está lendo esta coluna, então já perdeu pontos comigo.
É segunda-feira de Carnaval, corra para a rua, para a praia, para o salão, fique na porta de casa esperando algum maluco passar, esqueça o rock inglês, as bandas novas de Montreal, mande o Morrissey chorar as pitangas lá no gelo de Manchester, tranque bem trancados aqueles CDs de grupos indie melancólicos que emocionam você nos outros 360 dias do ano.
Hoje é Carnaval!
Viver no Brasil tem um preço -que é alto, a gente sabe. Mas é a hora do "payback", sábado, domingo, segunda e terça (e alguns outros dias a mais, dependendo da região do Brasil onde você vive), dias em que este nosso país maluco, magicamente, no ritmo ondulado do samba carioca ou no das acrobacias de rua do frevo de Recife, faz sentido.
Góticos, pulem, não tem problema, desta vez vocês podem ser felizes. "Indies", tirem a gosma do cabelinho, botem uma peruca de Elke Maravilha e saiam jogando água nos outros -está liberado. Metaleiros, vocês que gostam de pancada, viajem nas batidas daquele treme-Terra arrasador que abala a avenida. Rapaziada da cena "emo", vocês que são sensíveis, entreguem o coração ao menino ou menina esperto(a) que sabe de cor todas as letras do Chiclete com Banana.
No Carnaval, é zero o teor de hipocrisia para quem, durante esses dias, não precisa fingir, como no restante do ano, que no Brasil se respeitam leis e regras. Vale tudo: Sandra de Sá, Tim Maia, trio elétrico, branquelos que não sabem batucar, quermesse na praça, pirâmides de latinhas na porta da casa alugada na praia, acordar no meio da tarde, enlouquecer no mela-mela, dormir em São Paulo e acordar em Aracati (CE).
Os pecados carnavalescos têm um "deadline" implacável, a Quarta-Feira de Cinzas (de novo, dependendo da região). A vantagem é que a alegria acaba, mas o perdão pode ser eterno -ou durar, pelo menos, até o próximo Carnaval.
Uma vez, um velho professor deu uma lição de filosofia de rua a um amigo que não posso reproduzir aqui, nas páginas deste suplemento tão família. A lição não tinha exatamente a ver com o Carnaval, mas, adaptando, ficaria mais ou menos assim: "Filho, sempre que um Carnaval passar na sua frente, te chamando, pegue. Pegue mesmo, porque um dia você pode ser velho e caído como eu".
PLAY - Foliões de rua
Por todas as razões expostas ao lado, "Escuta Aqui" dá a maior força a quem se concentra, com força total e empenho absoluto, em aproveitar o Carnaval 1.000%.
PAUSE - Foliões de TV
Tudo bem, faltou grana para viajar, não deu para colar ao vivo na folia. Mas, pelo menos, não vá fingir que não é Carnaval! Uma tevezinha ajuda a esquecer a frustração.
EJECT - Não-foliões
Repertório "indie" para abafar o samba? Metal na cabeça nos dias em que Momo é rei? Festa gótica em plena folia? Vá morar em Seattle, então, para ficar no clima!
Ã?LVARO PEREIRA JÃ?NIOR
Naquela de fazer listas dos melhores de 2004, deixei passar algumas coisas legais que vi em Los Angeles, no mês passado. Mas ainda dá tempo de tirar o atraso. Vamos nessa.
Não sei se o iPod tem um único inventor, mas, se tiver, é o maior gênio desde Isaac Newton (1642-1727). Muito mais do que um bem de consumo ou um simples "gadget" eletrônico, o iPod é um fenômeno social. Em LA (e, imagino, em outras grandes cidades dos EUA), simplesmente todo mundo tem e usa, do tiozinho executivo fazendo escala no aeroporto ao skatista tatuado de Venice Beach.
E não é por status, como no Brasil (onde os modelos mais baratos custam o equivalente a seis salários mÃnimos), mas só porque é simples, prático e acessÃvel.
O iPod, para quem aterrissou há pouco de Alfa Centauri, é o tocador de música da Apple. Pequeno, leve, tem capacidade de armazenamento de um computador de mesa. Pegou.
Uma rádio bacana de LA, da qual quase nunca falo, é a KCRW, que tem o grande programa "Morning Becomes Eclectic". Todos os músicos e bandas que passam pela cidade dão um pulo lá e fazem apresentações ao vivo, exclusivas. O legal é que os caras têm um arquivo gigante na internet. Algumas atrações recentes: Moby, Dears, Trashcan Sinatras, Jon Spencer Blues Explosion etc. Vai nessa que é beleza, material valioso e grátis: http://kcrw.com/show/mb.
Muito esquisito o lançamento da caixa do Nirvana, que reúne material maravilhoso e inédito. Achei que só ia se falar nisso na Califórnia. Mas que nada. Na superloja Amoeba, por exemplo, a caixa estava lá no canto do Nirvana, sem nenhum grande pôster ou destaque especial. Depois passei na Virgin Megastore, a mesma coisa. Na Tower Records do Sunset Strip, também.
Deu tanto trabalho para fazer o projeto acontecer e, agora, eles botam na rua meio assim, sem aquele supergás? Vai entender...
Quem está com tudo mesmo em LA é o tiozinho Brian Wilson, que enrolou 37 anos (!!) para lançar o álbum "Smile".
Cartazes e pôsteres em todos os cantos, presença certa nas listas de melhores do ano etc. Wilson, 62, é local de LA.
Dos novos nomes da cena angelena, um dos mais falados é Helen Stellar, que, apesar do nome, é um trio de homens, não uma moça em carreira solo. Originalmente de Chicago, mas bombando na cena indie de LA, Helen Stellar é o My Bloody Valentine do século 21. Sério.
Ã?LVARO PEREIRA JÃ?NIOR
"Desculpe, perdi meu microfone." � a única frase trocada entre cantora e platéia, em meia hora de show. Minutos antes, pela enésima vez, ela havia derrubado o microfone. O equipamento nem caiu tão longe assim.
Se ela olhasse para o chão, à esquerda, o encontraria. Mas sabe-se lá em qual galáxia está a cantora. Para ela, a peça mergulhou em alguma fenda inacessÃvel do espaço-tempo. Pediu desculpas ao público usando o microfone de seu parceiro.
São só eles dois e a platéia. A cantora é alta, morena, esconde o rosto o tempo todo atrás de longos cabelos negros. Já ele canta e toca guitarra. Ou melhor, não canta, urra. E não toca guitarra do jeito que a gente conhece. As notas saem do instrumento como espasmos sem rumo. Ele é baixo e usa o cabelo em tigela. Parece Mark E. Smith, da lendária banda The Fall, 30 anos mais novo.
Estamos em um show da dupla anglo-americana The Kills, que simplificou ainda mais a fórmula dos White Stripes. Se os WS têm só um homem, Jack, na guitarra, e uma mocinha, Meg, na bateria, os Kills precisam de ainda menos.
Ele, que usa o sensacional nome artÃstico Hotel, faz guitarra e vocais. Ela, VV, praticamente só canta. Toca guitarra em poucas canções. Máquinas substituem baixo e bateria.
O guitarrista e a cantora são, tudo indica, marido e mulher. Há uma brutal tensão sexual entre os dois. Os microfones (pelo menos enquanto um não desaparece) ficam de frente um para o outro. Hotel e VV cantam se olhando nos olhos, de lado para a platéia.
A música é blues/rock reduzida ao mÃnimo. Na última canção, VV se joga no chão, separa levemente as pernas, está entregue aos golpes de guitarra de Hotel, que toca ajoelhado no espaço onde as pernas se abriram.
Depois da última nota, ele se levanta bruscamente. Ela demora um pouco, agarra Hotel pela parte da frente das calças, como se quisesse mais. Acabou.
As 4.000 pessoas presentes à Brixton Academy, em Londres, lançam aplausos protocolares. O público, majoritariamente adolescente, estava lá para ver a banda de encerramento. Mas o que veio depois é uma história para as próximas semanas.
Por hoje, ficamos com The Kills. E pode acreditar: basta.