segunda-feira, dezembro 03, 2001

Trail of Dead em São Carlos

Só vou falar o básico:

Para variar, só eu fui no show. Por isso que eu digo, é tudo bunda mole. depois reclamam que não vem ninguém nesse canto isolado do mundo. E tome Tchan!

Cheguei atrasado e perdi o Garage Fuzz (Parece maldição. Não consigo ver uma porra dum show desses caras)

Trail of Dead: Puta barulheira. o lugar não ajudava mundo no som. Mesmo assim foi foda. parece Sonic Youth mais barulhento. Partes calminhas e em seguida aquela puta detonação.

A mulecada mandando stage dive direto o show todo. Tinha uma menina que subia no palco com um cartaz escrito "Fuck Sigur Rós ", dava um chilique e pulava...

Uma hora e dez e não sobrou nada no palco os caras quebraram a porra toda. Chutaram tudo! Foi guitarra, bateria, amplificador, e tudo o que havia pela frente. aí a galera começou a fazer cabo de guerra com os cabos. Quase sairam no tapa com a banda.
(Vai lá saber se era segurança ou platéia).

Enfim, puta show. Quem esteve lá viu...


CD PLAYER

PLAY "Comme un Garçon"
Stereo Total
Mundo, acabe agora, para que este velho colunista chegue ao além tendo escutado, como último som, essa loucura franco-germânica, mix de Kraftwerk, Serge Gainsbourg e Cramps.

PAUSE "Toxicity",
System of a Down
Confesso minha total incompetência, certamente causada pelo excesso de idade, para saber se essas jovens bandas de punk-metal prestam ou não. Muita gente gosta, então ganha Pause.

EJECT "A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana",
Titãs
Acho que nunca uma banda se levou tão a sério quanto os Titãs. Pensando bem, aqueles discos de relançamentos eram melhores -ao menos, tratava-se de um mal conhecido.



GRINGAS

Negros, gays e transexuais
Como San Francisco é uma cidade que se esforça para manter o próprio folclore libertário, rolou na semana passada o Primeiro Festival de Cinema Negro de Gays, Lésbicas e Transexuais. O que exatamente isso quer dizer, não sei, mas sei que tinha um filme do Brasil.

Revista nota dez 1
Atenção, chamando todos os carros! Fique ligado na revista "The Thresher" (www.thethresher.com), feita pelos mesmos visionários responsáveis por várias publicações que marcaram época, como a "Mondo 2000" (ótima, de vida curta) e "Nose" (demolidora) .

Revista nota dez 2
Sorte ou profecia, o fato é que a primeira edição da "Thresher", finalizada em agosto, trazia como destaque artigos sobre bioterrorismo e segurança nos EUA. Vários dos textos estão disponíveis na internet, de graça, então capriche no inglês e mãos à obra!

Coisa feia nos EUA
Para os padrões americanos de prosperidade, a situação atual da economia é de penúria total. Sabe aqueles livros legais de turismo para jovens, a série "Lonely Planet"? Pois até essa sólida editora está pensando em fechar seu escritório nos EUA. Ninguém tem mais coragem de viajar.





ESCUTE AQUI

Arte e vida, rock and roll e cinema

Às vezes, a arte se parece com a própria arte, às vezes, se parece com a vida.
No rock, essa arte "artística" é representada por bandas como Pixies, Built to Spill, Guided By Voices e centenas de outras. Lembro de uma entrevista de Robert Pollard, do Guided By Voices, em que ele dizia que talvez existisse alguém que entendesse tanto de história do rock quanto ele. Que entendesse mais, sem chance.
Já o rock vital, trilha sonora das ruas, é o departamento de Neil Young, Iggy Pop e poucos mais. Referente em quase nada, sua arte nasce de si mesma.
Embarquei nessa viagem arte versus vida depois de assistir ao último filme do romancista-roteirista-produtor-ator-diretor David Mamet, uma pequena obra-prima chamada "Heist" ("Assalto"), com Gene Hackman e Danny DeVito.
Hackman é um velho assaltante que quer parar. Mas, claro, aceita fazer um último serviço. DeVito interpreta o mafioso que o contratou. Nenhuma linha do que eles dizem parece ter sido previamente escrita. Diálogos e técnicas de filmagem são de um realismo brutal. O clímax, um tiroteio em um porto, arranca aplausos do público. Em um gesto final de desprezo pela espécie humana, um dos assassinos, contemplando o homem que acabou de matar, aplica um pontapé no cadáver, jogando o corpo sem vida ao oceano. É puro Sam Peckinpah.
Se Neil Young ou Iggy Pop fossem cineastas, fariam filmes como "Heist".
Mas quem seria o equivalente, no cinema, ao "college rock" de Pixies e similares? Os jovens cineastas Steven Soderberg ("Traffic") e Darren Aronofsky ("Réquiem para um Sonho"). Ambos na casa dos 30 anos (SS, 38; DA, 32), são, mais do que diretores, "nerds" de cinema.
A câmera nervosa de "Traffic" e a edição estilosa de "Réquiem para um Sonho" são artifícios técnicos de que só viciados em celulóide poderiam lançar mão.
Já "Heist" nem parece ter sido filmado. É como se, por algum dispositivo sobrenatural, a vida como ela é fosse repentinamente transferida para a película.
Claro que essa oposição entre vida e arte, se é que ela existe, não implica um conflito do tipo "o bom contra o ruim". Pixies e Guided By Voices não são melhores nem piores do que Neil Young e Iggy Pop. Assim como as qualidades de "Heist" não apagam o brilho de virtuosos da direção como Soderbergh e Aronofsky.
A crítica não se animou muito com "Heist", um filme talvez honesto demais para os EUA pós 11 de setembro. Para mim, é um dos três melhores filmes dos últimos dois anos, junto com "História Real", de David Lynch, e "A Promessa", de Sean Penn.
Nesse mesmo período, o rock and roll não produziu nada tão visceral. O rock anda distante da vida.

GRINGAS

Negros, gays e transexuais
Como San Francisco é uma cidade que se esforça para manter o próprio folclore libertário, rolou na semana passada o Primeiro Festival de Cinema Negro de Gays, Lésbicas e Transexuais. O que exatamente isso quer dizer, não sei, mas sei que tinha um filme do Brasil.

Revista nota dez 1
Atenção, chamando todos os carros! Fique ligado na revista "The Thresher" (www.thethresher.com), feita pelos mesmos visionários responsáveis por várias publicações que marcaram época, como a "Mondo 2000" (ótima, de vida curta) e "Nose" (demolidora) .

Revista nota dez 2
Sorte ou profecia, o fato é que a primeira edição da "Thresher", finalizada em agosto, trazia como destaque artigos sobre bioterrorismo e segurança nos EUA. Vários dos textos estão disponíveis na internet, de graça, então capriche no inglês e mãos à obra!

Coisa feia nos EUA
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Negros, gays e transexuais
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Revista nota dez 1
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Coisa feia nos EUA
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segunda-feira, novembro 26, 2001

hoje eu fui foda!!!!

Mandei bem. tem reportagem legal aí pra dar com pau!

DOWNLOAD

A banda pós-Pumpkins

MARCELO NEGROMONTE
FREE-LANCE PARA A FOLHA

Isto que você vai ler agora é um mero sinal dos tempos, um fato corriqueiro, desses que não mudam a vida de ninguém, apesar de ser praticamente impossível antes de 1999. Uma banda recém-formada faz seu primeiro show e o mundo inteiro ouve.
Há quase um ano, o vocalista Billy Corgan terminou com o Smashing Pumpkins, uma das bandas mais importantes dos anos 90, principalmente antes de "Adore". Fez trabalhos esporádicos, como participar dos últimos disco e turnê do New Order, e recentemente montou uma nova banda, o Zwan.
No último dia 16, o Zwan (formado pelo guitarrista Matt Sweeney, o baterista Jimmy Chamberlin -também um ex-Pumpkin- e o baixista Pajo, também conhecido por Skullfisher) se apresentou ao vivo pela primeira vez. Era o primeiro dos quatro shows que a banda fez até o último dia 21 na Califórnia, como consta no tosco www.zwanmusic.com.
E são gravações não menos toscas desse show do dia 16 que estão num napster perto de você. Ouça "And So I Died of a Broken Heart", "The Empty Sea" (aqui com referências claras a Joy Division) e "Permanence" e perceba quão doce se tornou Corgan.
Após os Strokes, esse é o segundo caso de uma banda que não lançou nenhum disco e já possui gravações ao vivo. O que deveriam ser registros históricos a tecnologia transformou em fatos cotidianos da vida.



NOVO ROCK AMERICANO

Banda do Texas toca quinta e sexta-feira no Sesc Belenzinho

Trail of Dead faz bombadeio sonoro em São Paulo

DA REPORTAGEM LOCAL

Deve ser o sol do Texas na cabeça, mas o calorento Estado americano tem fabricado as bandas mais violentas (sonoramente falando) da atual vibrante safra do rock americano, essa que está apresentada na capa e nas duas páginas seguintes do Folhateen.
O Texas tem a incrível Lift to Experience e já não tem mais a explosiva At the Drive in (a banda recém-acabou). E é de lá que vem também a ...And You Know Us by the Trail of Dead, banda de nome interminável que desde a semana passada está em turnê pelo Brasil.
O grupo, um Sonic Youth heavy metal, é conhecido como daqueles que, ao contrário de bandas mais nervosas, primeiro quebra os instrumentos para depois começar o show.
E parece que, nas duas apresentações do Sesc Belenzinho (0/xx/11/ 6605-8143), quinta e sexta-feira próximas, a fama de destruidor (em todos os bons sentidos) do grupo vai ser mantida.
"Nossa performance ao vivo é marcada por entusiasmo e excitação. Pelas histórias que ouvimos sobre shows no Brasil, não temos dúvidas que vamos encontrar as mesmas coisas por parte do público daí", disse Neil Busch, integrante do grupo, direto do Texas por e-mail.
"Será um show costumeiro nosso: epifania catártica através de bombardeio sonoro", definiu Busch, que como qualquer um do quarteto Trail of Dead toca todos os instrumentos e inclusive canta.
Segundo Busch, o show do Trail of Dead daqui conterá músicas do próximo álbum da banda (a ser lançado em 2002) e canções de "Madonna", o CD de estréia, que a Trama lança ainda este mês no Brasil.
Antes dos shows de quinta e de sexta, o Trail of Dead destrói os estúdios, ou melhor, se apresenta ao vivo na rádio Brasil 2000 FM (107.3 MHz), como convidado do programa paulistano de rock "Garagem", às 23h.
São Paulo então terá três oportunidades nesta semana de ver de que maneira o Trail of Dead imprime ao vivo sua filosofia.
Qual é ela mesmo, Busch? "Tocar rock'n'roll, ficar famoso e depois morrer". (LÚCIO RIBEIRO)




Banda anuncia vinda ao Brasil "depois de abril"

DA REDAÇÃO

Nada como falar do encorpado rock americano com quem faz parte dele.
"Não gosto de nenhuma banda nova", afirmou Fabrizio Moretti, baterista brasileiro do ótimo Strokes (NY), momentos antes de o grupo encarar 30 mil pessoas no palco do prestigioso festival inglês de Reading, em agosto passado.
"Na verdade, não é que não goste", disse Fabrizio. "Apenas não ouço muito".
O baterista do grupo de rock mais falado de 2001 revelou que só escuta "velharias" tipo Velvet Underground e Beatles. "Radiohead também."
"Mas meus amigos não param de sair para shows, bares, onde sempre tem banda nova. Voltam comentando. É sinal de que a cena está fervendo."
Fabrizio mostra conhecimento das "novidades" apenas na hora de falar do Moldy Peaches, dupla roqueira também de Nova York.
"Adoro o Moldy Peaches. Eles são a mistura certa de um rock'n'roll realmente bom com uma boa diversão."
"Quanto ao White Stripes, de novo bastante gente fala, mas eu não conheço muito bem. Tenho que confessar minha ignorância sobre eles", disse o baterista.
"Mas já gosto deles só de saber que são apenas um guitarrista e uma baterista. Só podem fazer música boa."
De volta ao futuro, os Strokes soltaram comunicado afirmando que devem mesmo vir ao Brasil "em alguma data depois do mês de abril".
"As coisas estão ficando excitantes no Brasil. "Is This It" [o álbum dos Strokes" é um dos mais vendidos na Saraiva Megastore. E o vídeo de "Last Nite", um dos mais vistos na MTV americana e na latina, estreou nesta semana na MTV Brasil", diz a nota assinada pelo empresário da banda, Ryan Gentles. (LR)



0ESSE TAL DE ROCK AMERICANO

Desde o grunge (91) os EUA não reúnem tanta banda boa; Brasil já lança CDs e vê shows

Muito além dos Strokes

Divulgação
Integrantes da banda Black Rebel Motorcycle Club, de San Francisco


LÚCIO RIBEIRO
DA REDAÇÃO

Você pensou que os Strokes eram tudo?
O efeito Nirvana por enquanto é menor, mas desde o grunge do começo dos anos 90 o rock americano não se constituía em tão significativa cena. E não produzia tantas bandas boas, energéticas e explosivas.
Quem, em 2001, foi bombardeado pelo "assunto Strokes" e decidiu verificar o que realmente estava acontecendo, pôde enxergar que pela mesma porta aberta pelo grupo nova-iorquino estavam passando em alta velocidade nomes como White Stripes, Black Rebel Motorcycle Club, Le Tigre, Moldy Peaches e um monte de outras bandas.
Não coincidentemente, o eco da atual excelente safra do "american rock" já é ouvido em alto e bom som no Brasil, que está recebendo os lançamentos do último CD do "hypado" e peculiar White Stripes (Detroit), o primeiro álbum da elogiada banda de punk dance Le Tigre (Washington) e o show do destruidor Trail of Dead, integrante da prolífica cena texana (leia à pág. 5).
A soturna Black Rebel Motorcycle Club, já bem tratada aqui no Folhateen, grita de San Francisco: "I gave my heart to a simple chord/ I give my soul to a new religion/ what ever happened to you/ what ever happened to our rock'n'roll" (Eu dei meu coração a um simples acorde, eu dei minha alma a uma nova religião, o que está acontecendo com você, o que está acontecendo com meu rock'n'roll).
A Sum Records ouviu o BRMC e correu para lançar Le Tigre e White Stripes (veja ao lado). Strokes toca bastante em rádios brasileiras, é tema de especial da MTV, tem cartaz espalhado por todo o Rio de Janeiro e já é hit de vendas em lojas de rock paulistanas.
Para aproveitar a turnê do ótimo grupo texano pelo país, a gravadora Trama prepara a edição nacional do Trail of Dead ainda para este mês.
E a nova gravadora indie FNM promete para janeiro o recém-lançado (lá fora) disco de estréia do desmiolado Andrew WK, sujeito que parece Iggy Pop cantando no AC/DC com a máscara do Kiss. Você ainda vai ver muito a capa do disco dele, "I Get Wet", ilustrada por seu rosto bem... ensanguentado.
O Folhateen preparou um mapa (veja ao lado) do rock made in USA com algumas das bandas indies mais faladas em revistas, jornais, TV e internet. E dá as dicas de canções "fundamentais" para você vasculhar a rede de computadores, ouvir e entender para onde a música jovem está indo com esse tal de rock americano.
O rock americano, ao contrário da base metal soturna que pautava principalmente os grupos de Seattle, em 1991, aparece dez anos depois em vigorosa forma e bem diversificado, seja no estilo seja na localidade das bandas.
Existe a sombra do grunge no "veterano" (1998) grupo Queens of the Stone Age, tem o som 70's dos Strokes, tem o hard rock do Andrew WK, tem o blues detonado do White Stripes e tem a new wave renascida do Le Tigre, por exemplo.
Do Le Tigre, banda que, se você olhar bem, nem é banda (uma é música, a outra é videomaker, a outra é dona de fanzine), já é encontrado nas lojas brasileiras o elogiado e homônimo disco de estréia.
"Le Tigre", o CD, ganhou edição por aqui simultaneamente ao lançamento no exterior do segundo álbum das meninas, "Feminist Sweepstakes".
Pronto. Agora já dá para tirar o CD dos Strokes do cdplayer.
E tem neguinho que ainda vta no tal de maluf....
PLAY Death Cab for Cutie ao vivo
Grande show do grupo de Seattle que é dos favoritos da cena indie dos EUA. Canções melódicas, que lembram o Superchunk das antigas, e um baixista possuído.

PLAY "The Man Who Wasn't There", irmãos Cohen
Outro Play, e não para CD, mas para o novo filme dos irmãos Cohen, com Billy Bob Thornton. Tudo dá errado, e todos são punidos, mas não pelos crimes que cometeram.

EJECT "White Ladder", David Gray
Sim, é possível fazer música ainda mais yuppie e desfibrada do que David Matthews e Sting. David Gray é a triste prova disso. Se você não o conhece, parabéns.
...e dá canseira
Um pobre jornalista americano começou a entrevista com Julia perguntando: "Você, ao lado de tantos astros...". Ela: "Não me chame de você, me chame de Julia Roberts." Ele: "Julia Roberts, ao lado de...". Ela: "Mudei de idéia: pode me chamar de você."

Diretor cai do céu
Quem apareceu sem avisar ninguém foi o diretor do filme, o ultrapremiado Steven Soderbergh. Todo de preto, ao meio-dia de um domingo de sol, filmava tudo ao redor com uma pequena câmera digital. E botou menos banca do que qualquer diretor brasileiro de curta-metragens.



escuta aqui

Britney Spears dá vontade de mudar para Saturno

ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR
COLUNISTA DA FOLHA

Já que a época é de vestibular, uma pergunta de múltipla escolha para você. Quem deu a declaração abaixo:
"Ah, quando eu fui à premiação da "Billboard", eu estava usando um chapéu laranja e um casaco laranja, meia arrastão, botas, e estava, tipo, muuuito horrível. Nada a ver, parecia uma cafetina. E eu, tipo, pensei: "Não estou nem aí, vou assim mesmo". É claro que minha mãe falou, tipo, "Você vai desse jeito?'"
a)Barry Sharpless, Nobel de química deste ano;
b)Harold Bloom, crítico literário;
c)Britney Spears;
d)Uma anta;
e)"c" e "d" estão corretas.
Esse primor de raciocínio é só um entre vários trechos que desafiam qualquer qualificação possível e que compõem a mais recente reportagem de capa da revista norte-americana "Rolling Stone". A entrevista, claro, é com a cantora Britney Spears, 20 anos e muito silicone.
Não quero parecer purista ou defensor de alguma tese hipócrita sobre "jornalismo de alto nível". Tenho experiência suficiente para saber que uma revista como a "Rolling Stone" precisa vender muito, e que Britney Spears na capa atrai infinitamente mais compradores do que uma banda do interior de Oklahoma conhecida só por meia dúzia de "nerds" bem informados.
Mas não há como fugir do adjetivo "deprimente" ao ler a reportagem principal da edição mais importante do ano da "Rolling Stone" e constatar que trata-se de um blablablá desmiolado com uma menina lindíssima, mas que nada tem a dizer.
A "RS" escolheu Britney como a "personalidade do ano". E destacou também Fred Durst (do Limp Bizkit), Alicia Keys (cantora), Dave Matthews (aquele), Bono, a atriz Angelina Jolie (yes!), a banda Sum 41, a boy band 'Nsync, Bob Dylan, Paul McCartney (a entrevista com ele é a melhor coisa da revista), e, entre vários outros nomes, o inominável Aaron Lewis, líder do grupo Staind, um cara que, a meu ver, deveria depositar todo dia um milhão de dólares na conta de Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam, de quem ele copia absolutamente tudo o que faz.
Como dizia meu amigo André Forastieri, uma relação dessas é um monumento à mediocridade dos tempos. E, pior ainda, foi publicado na "Rolling Stone", uma revista que, por seu passado inovador, sempre mereceu admiração.
Por favor, quando sai a próxima nave para Saturno?

segunda-feira, novembro 12, 2001

ESCUTA AQUI

O novo rock americano entre o lamento e a revolta
Divulgação
Os integrantes do Black Rebel Motorcycle Club


O Pinback, de San Diego, lamenta: "Triste saber que vou morrer/ Mas espero que seja depois do que eu imagino".
E o Black Rebel Motorcycle Club, de San Francisco, fulmina: "Entreguei minha alma a uma nova religião/ O que aconteceu com você? O que aconteceu com meu rock and roll?".
O Pinback é cerebral, sincero e econômico. O BRMC protege-se atrás de uma névoa espessa, onde atitude e música têm a mesma importância.
Musicalmente, não se parecem em nada. Mas acabam se encontrando por praticarem, cada um a seu modo, um rock and roll fora dos radares da indústria. Nem pop para consumo fugaz, nem brutalmente analfabeto como o chamado novo metal que manda nas rádios dos EUA.
Pinback e BRMC são guerrilheiros, digamos.
Nos últimos dias, vi um show de cada banda, e aqui cabem explicações.
O Pinback é uma dupla, Zach Burwell e Rob Crow, que se alterna nos vocais, guitarras, baixos, teclados, percussão e programação de ritmos. Ao vivo, contam com um baixista e um baterista.
Só gravam em casa, no computador pessoal de Zach. O segundo álbum do Pinback acaba de sair, chama-se "Blue Screen Life" e, em seus melhores momentos, parece um encontro celestial do Pavement com o Portishead.
O mais impressionante, tanto em disco como ao vivo, é a precisão com que Rob e Zach dividem os vocais: basicamente, um canta, e o outro fala.
Nada é igual ao Pinback.
O BRMC é outra história. Trata-se de uma cópia idêntica do finado grupo escocês Jesus and Mary Chain. Tem as mesmas guitarras em distorção fora de rumo, o mesmo baixo que perfura a caixa craniana e, principalmente, a mesma temática niilista induzida por drogas.
Peter Hayes (guitarra e vocais), Robert Turner (baixo) e Nick Jago (bateria) vêm da chamada East Bay, região de San Francisco. Têm 20 e pouquíssimos anos. Negam-se a dar detalhes precisos sobre sua origem com medo, comenta-se, de que repórteres descubram fotos ridículas de seus álbuns de formatura da escola (tem de ser muito moleque para se preocupar com uma coisa dessas).
Ao vivo, ainda têm um longo caminho a percorrer. Mas seu repertório é sólido, cheio de várias canções boas e uma excepcional: "Whatever Happened to My Rock" n" Roll (punk song)".
O som do BRMC seria só uma imitação rasa do rock inglês do começo dos anos 90 se não fosse tão desesperadamente jovem. Mais: se não fosse tão puro rock and roll.


GRINGAS

Scheila e os caipiras
Leio na internet que a monumental Scheila Carvalho foi eleita, no Brasil, a mulher mais sensual do mundo. Sou fã da moça, mas não seria exagero chamá-la de a mais sensual... do mundo? Depois dizem que os americanos é que são caipiras e desinformados sobre o resto do planeta.

O Exorcista 1
Imagine se Linda Blair, a possuída em "O Exorcista", excursionasse divulgando sua autobiografia. E que, em um cinema lotado, se dispusesse a ser entrevistada por uma drag queen fanática por filmes. Tudo isso como "aquecimento" para mais uma exibição do hoje clássico "O Exorcista". Imaginou?

O Exorcista 2
Pois aconteceu mesmo, há pouco tempo, em San Francisco. Linda respondeu a toda e qualquer pergunta sobre sua vida e carreira (ou ausência de). Na autobiografia, além de histórias dos bastidores demoníacos, ela faz a apologia do amor pelos animais e do vegetarianismo radical.

Black metal
Rob Crow, do Pinback, fez ironia com o público, dedicando uma música "aos fãs de black metal", tipo sombrio de heavy metal que não tem nada a ver com o Pinback. Pessoas gritaram, então, nomes da bandas que imaginavam ser de black metal: Exodus, Carcass e Slayer. Só bola fora. Rob riu.

CD PLAYER

PLAY

"Blue Screen Life",
Pinback
Talvez o Pinback seja a melhor banda que vi e ouvi nesses dois anos nos EUA. É corajosamente original, com melodias muito simples, mas apresentadas sempre com sofisticação.

PLAY

"Twisted Tenderness
Deluxe",
Electronic Coletânea em CD duplo do grupo de rock eletrônico formado por Bernard Sumner, do New Order, e Johnny Marr, dos Smiths. E o melhor: tem faixas inéditas.

PAUSE

"It's a Wonderful Life",
Sparklehorse
Paciente, "Escuta Aqui" ainda está tentando entender o folk torturado que Mark Linkous concebeu no novo disco do Sparklehorse. Talvez nunca entenda.

MÚSICA

Simplicidade e um pouquinho de massa cinzenta

Banda inclui crítica ao arsenal de skate, mulheres e baladas

FERNANDA MENA
DA REPORTAGEM LOCAL

Quem ouve rádio conhece de cor, mesmo sem querer, a canção "Não É Serio", do Charlie Brown Jr., que é martelada em várias sintonias do dial há cerca de oito meses. A música, do álbum "Nadando com os Tubarões", de 2000, fala do "jovem", do tal "sistema", e apregoa uma crítica antes incomum ao repertório de baboseiras da banda santista.
O acréscimo de massa cinzenta ao trabalho da banda é resultado do flerte deles com o discurso engajado dos grupos de rap, que participaram daquele álbum, e da própria experiência do vocalista Chorão, 31.
Essa novidade serviu de base para grande parte das composições de "100% Charlie Brown Jr. - Abalando a Sua Fábrica", quarto disco da banda, o primeiro lançado pela gravadora EMI, que chega agora às lojas, cheio de hits instantâneos.
""Não É Sério" puxou o carro dessa fase engajada da banda. Isso tem a ver com o que eu estou passando. Perdi meu pai e percebi que fiquei ocioso por muito tempo da minha vida, quando poderia estar fazendo várias coisas legais", explica.
"Passei 27 anos na balada. Era disso que a gente falava nas letras", reconhece o vocalista. "Era mais um jovem desempregado que ficava por aí, vagando pela noite. Agora, é diferente. Sou um cara que percebeu que pode fazer algo legal, que tem vontade de ver as coisas diferentes e que passou a integrar o sistema, pagando contas e impostos", diz, garantindo que, ao menos para ele, a vida passou a ser mais do que uma "balada irada" ou um rolé de skate.
Daí surgem críticas políticas e sociais em letras que falam dos "caras do Senado" ("Eu Protesto") e de "matar o presidente" ("Hoje Eu Acordei Feliz"). Polêmicas para menores de 14 anos criadas por marmanjos trintões.
Mas o grupo é bem-intencionado e, no minguado mercadão de rock brasileiro, o hardcore melódico do Charlie Brown Jr. tem lugar de destaque. A banda foi revelação do Video Music Brasil em 98, faturou os prêmios de melhor clipe de rock e melhor clipe na escolha da audiência em 2001 e já vendeu 1 milhão de cópias de seus discos desde a estréia em "Transpiração Contínua Prolongada", que emplacou canções como "O Coro Vai Comê!" e "Proibida pra Mim".
De lá pra cá, é possível notar um estranho processo de evolução que teima em manter um pé na estaca zero. O Charlie Brown Jr. buscou uma aproximação com jovens menos descerebrados sem deixar de agradar aos fãs da temática skate, mulheres e baladas.
"O jovem hoje tem poucas opções e oportunidades. Ele está muito distante do que quer e por isso se envolve em coisa errada. Só que quem vai mudar essa realidade é o próprio jovem, com autoconfiança e fé. A priori, nossa intenção é mandar um som no papo de entreter, mas com uma mensagem", afirma.
Assim, a banda conjuga alertas ao universo vazio de muitos adolescentes, como em "Só Lazer" ("Se uma mansão e um carro gringo é o que te atrai / Se um videoclipe do Twister te distrai"), a músicas que carregam o que há de mais chavão na irreverência criada por grupos como o Raimundos, como em "Sino Dourado".
"100% Charlie Brown Jr. - Abalando a Sua Fábrica" também traz mudanças sonoras. Com a saída do guitarrista Thiago antes do início das gravações do novo disco, Chorão, Champignon (baixo), Marcão (guitarra) e Pelado (bateria) soam mais garagem e investem em melodias mais simples e cruas. "Viramos um "power trio". Perdemos o requinte, mas ganhamos raça", entusiasma-se Chorão. Agora, é só ligar o rádio e conferir.

terça-feira, outubro 30, 2001

Free Jazz

São Paulo, 26 de Outubro de 2001-10-29

Bom, e lá vamos nós para mais um show aqui na gloriosa SP. Desta vez a primeira noite paulistana do Free Jazz Festival.

Como os ingressos estavam esgotados, e eu tinha dois sobrando, achei, em um primeiro instante, que seria moleza passá-los adiante. Cheguei na porta do local cerca de 45 minutos antes do início. Para minha surpresa, havia uma verdadeira legião de cambistas e outras pessoas querendo vender ingressos. Resumindo a história: depois de uma hora tentando passar os ditos cujos adiante, desisti. Vendi para um outro cambista. Prejuízo contabilizado, era hora de entrar... E para espanto geral, uma fila de uns 300 (!) metros estava a minha espera. Já passava das dez e meia quando entrei no (final) da fila.

Quando consegui entrar, já devia ser mais de 11 horas. Não sei ao certo pois não olhei no relógio. Dentro, alguns roadies arrumavam os equipamentos no palco, enquanto a galera esperava. Beleza! Fui pegar uma cerveja.

Depois de algum tempo, o locutor anuncia os “garotos da gelada Islândia”. Eu tinha perdido o primeiro show. Grandaddy!

O Sigur Rós mandou um show lento e focado. Em certos momentos até parecia um espécie de Ennya ‘esquisita”. É o que se pode chamar de som “etéreo”. Uma levada lenta, algumas vezes barulhenta, e bem intensa, misturadas a muita melodia e alguma repetição.
O detalhe do show é o vocalista/guitarrista que passou a maior parte do show tocando guitarra com um arco de violoncelo.

Os quatro moleques contam com apoio de músico de câmara que atuam em algumas músicas, ajudando a compor o “clima”
Na galera, muita gente comprando bebida ou batendo um papinho amigo (especialmente a mulherada). Na frente do palco, muita concentração no som. Reação mesmo, só nas músicas mais barulhentas.

Enfim, um show bacana, que dificilmente vem para o Brasil em condições normais. O público, muito heterogêneo (aquele mix: descolados de plantão, indies, patricinhas, etc) reagia também de forma heterogênea. Até chegar a vez do Belle & Sebastian...

A primeira vez que ouvi falar de B&S, foi na coluna do Álvaro, no Folhateen. Aquela coisa de corações amargurados, melancolia, e uma pontinha de tristeza no coração.
Formava-se então aqui (como lá fora), uma legião de órfãos dos Smiths, sedentos por pop doce e meigo. Música para corações dilacerados (sempre achei que as coisas aqui só pegam pelo maciço hype dos jornalistas que cobrem a música pop, mas isso já é outra história.)

Começa o show, entra no palco um verdadeiro time de futebol. A primeira música é a faixa de abertura do bom “Boy with the Arab Strap”. (A discografia da banda inclui 4 álbuns e 7 singles, todos lançados no Brasil pela Trama). E para minha total surpresa, o público está totalmente sintonizado. Olho ao redor, muitos dançam e cantam as músicas, tocadas com surpreendente energia. Nos intervalos, um dicionário de expressões em português ajuda a comunicação com o público.
O mais legal é escutar o burburinho da galera ao reconhecer os primeiros acordes de quase todas as músicas. Era claro que todos estavam ali para ver aquele show!! Me surpreendeu de novo! Tanto o show em si, bastante animado, como as milhares de pessoas que lotaram a tenda do main stage. Londres é aqui. Ao menos por algumas horas.

Detalhe: Como estava sozinho, dei uma boa circulada para dar uma geral no povo presente (faz parte da coisa ver as figuras que aparecem). No começo do SR, fiquei no lado esquerdo do palco, uns 20 metros de distância. No intervalo das primeiras músicas, estava distraído dando uma “filmada” na galera quando vi uma turminha a uns 3 metros de mim. Era lúcio Ribeiro, a namorada, e a Clarah! Inacreditável! 4000 pessoas ali, e eles do meu lado!
A Clarah passou ao meu lado, e é claro que eu conversei com ela um pouquinho. Esse negócio de trocar e-mail com uma pessoa que voce nunca viu é muito esquisito. Apresentações foram feitas!

No final do B&S, o lúcio vinha na minha direção e me viu. De lá mandou um aceno. Quando chegou, o cara veio me cumprimentar! (Estou na mídia com diria um amigo radicado em Goiânia). Cool! Troquei uma idéia com a cara e vazei na multidão. Taí uma noite legal.
escuta aqui

Osama, antraz e internet levam San Francisco a nocaute
ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR
COLUNISTA DA FOLHA

Usando luvas roxas de borracha, a funcionária do correio comenta que nunca viu tão pouca gente na agência onde estou, perto de Berkeley, Califórnia (EUA). Ela acha que é medo, e que o medo é bobagem. "Isso é tudo "media hype". Continuo fazendo meu trabalho como sempre. Só estou de luvas." Era uma terça-feira, meio de tarde.
A balconista do correio pode até achar que não, mas tudo mudou nos EUA pós-11 de setembro e pós-cartas com antraz. Correio vazio é só uma entre milhares de novas realidades.
Horas antes de entrar na agência do "post office", eu tinha feito algo raro nesses quase dois anos vivendo nos EUA: saíra para passear a pé por San Francisco. E digo a você, jovem leitor: é brutal o estrago que o colapso das empresas de internet, associado à onda de terrorismo, causou nesta cidade.
Começo por uma região que, há menos de um ano, fervilhava: as avenidas Jackson e Pacific, perto da linda Embarcadero, ampla avenida que margeia a baía de San Francisco.
Passo pelo prédio de tijolinhos onde funcionava a revista "Industry Standard", uma bíblia da economia pontocom. O prédio e o logotipo ainda estão lá, mas a "Industry Standard" faliu.
Ao lado, o ultramoderno restaurante mc2 nem abre mais para almoço. E não há quase clientes na sorveteria zero, modernamente com z minúsculo.
Caminho na direção de Chinatown, o caótico bairro chinês que costumo evitar justamente por causa da bagunça 24 horas. Só que a Chinatown de agora é outra. Não há turistas. Velhinhos cantoneses aposentados descansam na praça, como se estivessem em um dos poucos bairros sossegados de Hong Kong. Nas portas dos restaurantes, fregueses são puxados a laço. Nunca imaginei que veria Chinatown assim.
Viro na direção de North Beach, o frenético bairro das casas de striptease e dos restaurantes italianos. Finalmente, uma fila. De três pessoas, para entrar no Boys Toys, clube de strippers que promete "beautiful girls and fabulous food". Vai ver que eles estavam com fome.
Faz um raríssimo dia de calor (22 C) em fim de outubro, e, um quarteirão para baixo, as mesas estão nas calçadas. Vazias. No café Niebaum-Coppola, que pertence ao cineasta, uma cliente conversa em italiano com o garçom. Não parece San Francisco. Parece o interior da Itália.
Volto para casa sem enfrentar congestionamentos, com a sensação inquietante de que alguém decretou um feriado macabro.

GRINGAS

Zoaram com o Brown 1
E viva a sabedoria popular! Leio na internet que o último show de Carlinhos Brown em São Paulo atraiu a gigantesca massa de... 20 pessoas. Isso, 20, dois, zero, apesar de todo o espaço que esse sujeito tem na mídia, que, rastejante como sempre, o trata como gênio. A palavra final veio da bilheteria.


Zoaram com o Brown 2
No Rock in Rio, Carlinhos Brown foi recebido a garrafadas pelo público. Pôs a culpa nos "metaleiros", que não saberiam, segundo a sumidade Brown, apreciar o verdadeiro som do Brasil. Vamos ver qual desculpa ele vai dar agora. Ressalte-se que o fracasso aconteceu em São Paulo, que tem público para qualquer coisa.


Abacaxi atômico
Abacaxi é pouco para definir "Mulholland Drive", a última picaretag..., digo, película do diretor David Lynch. O roteiro deve ter sido escrito pelo Carlinhos Brown, porque não dá para entender nada. As mesmas atrizes fazem vários personagens, duendes fogem de uma caixinha levada por uma bruxa etc. etc. etc.


Lixo da TV
Como prova de que qualquer coisa vende nos EUA, a genial gravadora e distribuidora Rhino, de Los Angeles, acaba de lançar em DVD os seis episódios de "Pink Lady", considerada a pior série da história da TV americana. "Pink Lady" mostra duas cantoras japonesas que não cantam nem falam inglês.

CD PLAYER

PLAY
"Ox4 The Best of Ride", Ride
Coletânea de uma das maiores bandas britânicas da virada dos anos 80/90, do tipo que tocava olhando para os sapatos e escondia as melodias sob zilhões de guitarras enfurecidas. Era bom, continua sendo.


PAUSE
A existência do Bush
Não é o George W., é a banda. Saiu o disco novo, "Golden State", que não ouvi. O grupo sempre me intrigou. É imitação atrasada do Nirvana, mas faz ótimas apresentações ao vivo e tem senso de humor.


EJECT
"Tem muito homem"
A KALX, rádio da Universidade da Califórnia em Berkeley, toca muita música brasileira cabeça. Esta semana, rolou uma medonha, em que uma mulher repete: "Tem muito homem, tem muito homem!" Não sei o que é.
Praias marcadas
Foi criada uma nova mídia: uma máquina que imprime logotipos e mensagens na areia das praias

Acabo de receber um aviso dando conta da criação de uma nova mídia. Trata-se de uma máquina que imprime logotipos de empresas, slogans e mensagens de cunho social e/ou comercial na areia das praias.

Acoplado aos enormes caminhões varredores, máquinas que fazem a limpeza das praias mais populares nos primeiros raios de sol da manhã, o dispositivo é capaz de imprimir em baixo relevo, milhares de quadrados com mensagens comerciais em toda faixa de areia perto do mar. Nas fotos demonstrativas que acompanham o material, podem ser conferidos logotipos como Coca-Cola, Globo, Mc Donalds, Bradesco, Telefonica e outras grandes corporações. Há, ainda, exemplos de campanhas de "cunho social" com frases como "Esporte não é droga, pratique".

No mesmo material, descobre-se que, com a verba paga pelos anunciantes, pequenas prefeituras poderão passar a limpar melhor suas praias, deixando de fazer o serviço manualmente e adquirindo o equipamento.

Lembro-me de quando comecei a escrever esta coluna, aqui mesmo no JT, uns dez anos atrás, no caderno que se chamava Jornal da Praia. Na época, registrei, revoltado, meu repúdio contra a instalação de um enorme relógio desses que mostram hora e temperatura, debaixo de um back light gigante com a marca de um fabricante de cigarros. O totem ficava em plena, então quase imaculada, Maresias, uma espécie de santuário até ali.

Olhando para o que se tornou Maresias hoje, meu protesto não passa de uma comédia de gosto questionável.

A noção do que é e para que serve uma praia tem sido de tal forma revirada que tenho dificuldade para formar minha opinião sobre o serviço proposto pela nova companhia de mídia exterior em forma de carimbos que somem das areias no decorrer do dia.

Quando era claro para a maioria da população que praias eram pedaços especiais do meio-ambiente, faixinhas lindas do planeta espremidas entre céu, água e terra, nas quais havia menos gente que nas cidades, e onde, por um fenômeno difícil de explicar, as pessoas se tornavam melhores, mais parecidas com o que de verdade são, retomando aquilo que vai ficando esquecido na vida aglomerada dos grandes centros, um despretensioso relógio parecia um grito histérico irrompendo em meio à mais calma e doce melodia de João Gilberto.

Berros

Agora que as praias estão mais para Funk do Tigrão que para Garota de Ipanema, e que vêm aos poucos se tornando espécies de parques temáticos, filiais de grandes feiras promocionais, abrigando show rooms, back lights, outdoors, boates, exércitos de promoters que distribuem amostras uns aos outros desesperadamente, a proposta da empresa mencionada parece fazer algum sentido. É como se fossemos esperar que a Avenida Henrique Schaumann prescindisse do caminhão que a varre, ou das placas que anunciam comércios, serviços e outros "features".

O que está errado, a transformação do planeta e do meio-ambiente num shopping gigante, onde a sujeira, a degradação e a poluição são só um meio, plenamente justificado pelo fim maior do "mercado" e da "economia próspera"?

Ou a empresa que, diante do inexorável, oferece uma maneira criativa de diminuir o problema, entregando areias limpas de manhã em troca de alguns milhares de quadradinhos com a marca Marlboro?

Jornal da Tarde
30/10/2001

terça-feira, outubro 16, 2001

California Dream
E os brasileiros vivendo nos EUA, como estão lidando com o terror se tornando algo tão próximo e presente?

E os brasileiros vivendo nos EUA, como estão lidando com o terror deixando de ser um artigo perdido nas páginas internacionais do jornal e se tornando algo tão próximo e presente?

A carta abaixo foi enviada por um jovem chefe de família brasileiro:

E aí, Paulo? Como vai? Desde junho de 99 eu e minha familia estamos morando na Califórnia.

Aproveitando o fato de ter uma filha americana e uma mulher com Green Card, saí fugindo do sobe-e-desce da nossa economia, da insegurança de Sampa e do trânsito infernal da Bandeirantes. Aqui, passado o tempo do sub-emprego, encontramos a estabilidade do dólar ,a segurança e limpeza quase total de Sta Mônica e, para irmos à praia, andando levo menos de 10 minutos. Tá certo, não é Maresias e muito menos Ilha Bela, mas a 10 minutos... Minha filha parece estar vivendo num seriado de TV. High school, pólo aquático, boyfriend, prancha de surf, snowboard, enfim, tudo que pediu a Deus. O moleque, virando teenager, cabelo espetado, matando os gringos no "soccer" e começando a arrepiar no snowboard. Eu trabalho de assistente de marketing numa empresa e minha mulher, num dos shoppings mais bacanas do pedaço.

SONHO DE VALSA

Não pegamos freeway e os trabalhos e escolas são a 10 minutos de casa. Saudades, é lógico que sentimos, mas quando aperta, coloco um Gil ou Paralamas, ou corro até a loja de produtos brasileiros e compro um Sonho de Valsa e farinha de mandioca. Todo dia me informo lendo o JT pela internet, pelas notícias que tenho lido, continuo achando que fiz muito bem em fugir daí. Não consigo imaginar minha filha de 17 anos caindo na noite de São Paulo. Lendo uma de suas crônicas, sobre os atentados, achei que vc gostaria de ouvir a opinião de quem está aqui, mas vê a situação e a atitude (eles aqui adoram essa palavra) deles com os olhos de quem veio daí. Bom, passado o choque inicial, os gringos começam a mostrar sua verdadeira cara. Um dia após os ataques, as ruas já começaram a ficar cheias de bandeiras - hoje a cada 10 carros 11 tem bandeira, lojas, casas, restaurantes. Parece Copa do Mundo no Brasil. Só que a seleção dos caras é o exército. Cada turma que embarca, choro, banda e tome "God bless America". Parece a gente, preocupados com a unha encravada do Rivaldo.

Ninguém quer saber porque meio mundo tem ódio mortal deles. De uma hora pra outra 95% dos caras concordam com tudo que o W. Bush fala, o mesmo que nos seus primeiros dias de governo disse: "O que é bom para os EUA é bom para o resto do mundo".

Vibram, enquanto tomam cerveja na frente da TV vendo as bombas destruírem o que já não existe. Filme que eles já viram em 1991 quando a CNN mostrou ao vivo a destruição de Bagdá. Só aqui em LA, mais de 50 descendentes de árabes já foram atacados. Liquor stores incendiadas, restaurantes apedrejados e crianças hostilizadas nas escolas.

Muros pixados com frases tipo "morte aos árabes" são vistos logo cedo, pois a turma que apaga vem correndo logo atrás.

GATINHA

Minha manager, uma gracinha de menina, loirinha, loirinha, cantora de hard rock nas horas de folga, mostrou suas garras ao me dar um desenho do velho "Tio Sam", só que em vez do dedo indicador chamando os americanos para alistarem-se no exército, o dedo que está erguido é o do meio com dizeres impublicáveis contra os que estão contra eles . Ou seja de gatinha a urso bravo. A paz americana está ameaçada como nunca esteve, a guerra chegou aqui. O céu na Califórnia continua azul, mas agora ficamos procurando para ver se não tem nenhum Boeing despencando. Já não se encontram máscaras de gas em nenhuma loja do pedaço. Qualquer cara barbado, o nosso tradicional "turco", está tendo que andar de olho aberto. Estou me sentindo naquela de "se ficar o bicho pega, se correr o bicho come". Calçadão de Venice com anthrax no ar ou Faria Lima com trombadão, pois trombadinha era quando eu estava por aí, e imagino que os caras cresceram. Assalto a mão armada ou bactéria vindo junto pelo junk mail ? No século 21 e os caras com cabeça na Idade Média.

Bom, espero que na pior das hipóteses, possa escrever pra TRIP sobre a fuga de carro via México e América Central.

Abraços a todos, ainda são e salvo


Jornal da Tarde
16/10/2001

segunda-feira, outubro 15, 2001

Nebula, ao vivo, em FM
MARCELO VALLETTA
FREE-LANCE PARA A FOLHA

Já está se tornando tradição ouvir, nas noites de segunda-feira, boas atrações internacionais tocando ao vivo nos estúdios da Brasil 2000 FM (107,3 MHz na capital paulista e em www.brasil2000.com.br).
Hoje, a partir das 23h, participa do programa "Garagem" (também na internet, em www.garagem.net) o trio norte-americano Nebula, que está em turnê pelo país desde a semana passada e faz show em São Paulo na próxima quinta-feira.
Contratado pela gravadora Sub Pop, que revelou o Nirvana e outras bandas da era "grunge", o Nebula toca um rock pesado com toques de psicodelismo, na trilha de grupos como Monster Magnet e Queens of the Stone Age.

O secretário da Segurança Pública de São Paulo, Marco Vinicio Petrelluzzi, participa hoje do "Jornal Gente", a partir das 8h15, na Rádio Bandeirantes (em São Paulo, 840 kHz e 90,9 MHz; na internet, www.radiobandeirantes.com.br). A emissora também lança hoje sua campanha beneficente de Natal.

valletta@folhasp.com.br